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Médicos que defendem empresas flagradas com produtos tóxicos no mercado, sempre afirmam que os danos causados à saúde pública são “individuais”, ou seja, só afetou quem denunciou. Em qualquer país do mundo, esmalte com pH 2:20, que provoca perda de imunidade, afeta órgãos internos e pode causar nascimento de crianças com mal formação congênita (crianças defeituosas) não poderia estar à venda. No Brasil, essas empresas contam com defensores de ‘formação superior e ética duvidosa’ para afirmar que tudo é alergia.

Está proibida em todo o Brasil a venda de cinco das mais populares linhas de esmalte de unhas – todas da marca Impala. São elas: Xuxa, Angélica, Hipoalergênico, Evolution e Impala (sim, uma das linhas tem o mesmo nome da fábrica). Os preços variam: alguns são encontrados por menos de R$ 2, e o mais caro, o chamado Hipoalergênico, pouco mais de R$ 10. Ou melhor, custavam.
Ainda não se sabe ao certo a razão da proibição. As assessorias de Xuxa e de Angélica, que representam duas das linhas agora proibidas, disseram à produção do UOL News que as apresentadoras só vão se pronunciar depois de entender o que aconteceu.

Procurada, a diretoria da Impala disse que está reunida. E a assessoria de imprensa informou que ainda não conseguiu saber o motivo da proibição. Nada ainda saiu no Diário Oficial e, por isso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, responsável pela decisão, não quer se pronunciar.

Diz que problemas técnicos foram detectados numa inspeção na fábrica no começo de dezembro. Alguns meses antes, laudo da Fiocruz dizia que num lote de esmaltes da Xuxa, havia acidez acima do permitido e que aí estava a possível causa de prejuízos à saúde do usuário.

Em entrevista ao UOL News, o alergista Clóvis Eduardo Galvão, do Hospital das Clínicas de São Paulo, disse que reações alérgicas a esmaltes são comuns, que independem do fabricante e que representam a quarta causa de uma doença chamada dermatite de contato. Segundo ele, o que mais causa essa alergia são produtos utilizados em maquiagem em geral, seguidos por cosméticos específicos para a região dos olhos (sombras e lápis de olho) e os batons.

“A dermatite de contato, que deve ter sido o quadro clínico que suscitou toda essa discussão, pode ser dividida em dermatite de contato por irritação ou dermatite de contato por mecanismo alérgico. A maioria dos quadros de contato é por irritação. Cerca de 20% a gente pode dizer que foi por mecanismo alérgico, ou seja, foi algum problema na resposta imunológica da pessoa. Ao passo que nos quadros por irritação, geralmente é algum componente do produto que tem um potencial de irritabilidade maior e que causa um prejuízo num número maior de pessoas que estão tendo contato com aquele produto.”

Hipoalergênico
O médico explicou que produtos hipoalergênicos são aqueles fabricados sem algumas substâncias passíveis de causar reações alérgicas. “Por exemplo: numa reação irritativa, se você tem 100 pessoas usando, quase 100 pessoas vão ter a reação. Na reação alérgica, você tem 100 usando e uma ou duas vão ter aquela reação, porque o problema não está no produto, mas na maneira como o organismo da pessoa alérgica está agindo àquele componente.”

Cosméticos na mira
Segundo Clóvis Eduardo Galvão, há 2, 3 anos vem crescendo o interesse e a fiscalização de órgãos reguladores sobre os produtos de beleza. “Até pouco tempo não tinha nenhuma regulamentação sobre cosméticos dermatologicamente testados, ou até mesmo das linhas ditas hipoalergênicas. De um tempo pra cá foram constituídas câmaras técnicas para estudar o assunto e cada vez mais a gente tem uma legislação que orienta melhor o fabricante a respeito desta política toda de lançamento desses produtos, com estes rótulos.”

Dermatologicamente testado
O alergista explicou que o produto dermatologicamente testado é aquele que antes de entrar no mercado, passou por testes até em animais, para depois ser testado em humanos. “Quando um produto é dermatologicamente testado, você interpreta que está adequado para ser usado na pele humana, que não é corrosivo, não causa queimadura, irritação, coceira. Mas não significa que não possa causar alergia. Para não causar alergia, tem de ser dermatologicamente testado e hipoalergênico.”

Reações comuns
Do ponto de vista médico, disse o especialista, reações alérgicas não são incidências raras. “A gente vê com uma certa freqüência, não só com esmalte mas também com tintura de cabelo, por exemplo.” Segundo ele, é importante ressaltar que muitas vezes as reações alérgicas, mesmo quando provocadas por um esmalte, usado nas unhas, se manifestam no rosto.

“Quando o consumidor abre o frasco do esmalte vem aquele cheiro forte, e aquilo fica ali evaporando resinas, compostos, e aí se sedimenta no rosto. E os lugares onde a pele é mais fina são nas pálpebras, nas orelhas e na região do pescoço. Começa então a vermelhidão e a coceira, que vai evoluindo para um enrrugamento da pele, como se fosse um envelhecimento da pele, depois vem descamação e inchaço. Este é o quadro que a gente mais vê associado ao esmalte. Em poucos casos você tem a lesão perto das unhas.”

Alternativas
Segundo Clóvis Eduardo Galvão, não há diferenças entre esmaltes nacionais ou importados. Apesar disso, indica para seus pacientes duas marcas estrangeiras: Clinique e Maybelline. “Existem marcas hipoalergênicas que a gente confia. Quando a gente consegue detectar que o indivíduo é sensível, a primeira alternativa é orientá-lo para que use marcas hipoalergênicas. Mas é bom lembrar que muita gente consegue bons resultados só por trocar de marca. É uma coisa bem individual.”

Fonte: Uol NEWS 12/01/2006