Imprensa: Omissão

O que opera é um monstruoso sistema de comunicação de massa fazendo a cabeça das pessoas. Impondo-lhes padrões de consumo inatingíveis, desejabilidades inalcançáveis, aprofundando mais a marginalidade dessas populações e seu pendor à violência. Algo tem que ver a violência desencadeada nas ruas com o abandono dessa população entregue ao bombardeio de um rádio e de uma televisão social e moralmente irresponsáveis, para os quais é bom o que mais vende, refrigerantes ou sabonetes, sem se preocupar com o desarranjo mental e moral que provocam.

Darcy Ribeiro

Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma.

Joseph Pulitzer
(1847-1911)

Comunicação de massa a serviço de crimes corporativos 

Importantes meios de comunicação foram alertados e não informaram episódios como casos de vítimas em estado grave, com sequelas internas e queda de todas as unhas dos pés e das mãos. Tampouco divulgaram, quando a consumidora foi caluniada e acusada de crimes pela Impala e fortemente intimidada pela polícia, ou ainda, quando teve que se apresentar à Justiça nesse panorama de silêncio, corrupção e impunidade explícitos.

Perplexa, a consumidora chegou a receber manifestações de jornalistas que perguntaram: como ela havia conseguido impulsionar as Instituições e comprovar por meio do Laudo Fiocruz que o produto era impróprio? Foi alertada, que se insistisse em informar sobre o produto tóxico no mercado, seria execrada publicamente. A consumidora, além de ser obrigada à permanente constatação de vítimas, já estava sendo execrada pela Impala, fortemente intimidada pela Polícia e silenciada pela “falta de interesse” dos meios de comunicação.

Luiza Rotbart tinha outra expectativa, pois como promotora cultural estava habituada à divulgação de projetos em parcerias com inúmeros meios de comunicação, na cobertura exposições, conferências e visitas de personalidades. Seus projetos obtiveram dezenas de páginas de divulgação e coberturas de TVs ao vivo, no Brasil e no exterior, por parte da mesma imprensa que agora, alegava à consumidora Luiza Rotbart, não ter interesse na cobertura de casos vítimas do produto tóxico de grande apelo de consumo infanto-juvenil.

Foi esclarecida pelos próprios jornalistas que, no setor empresarial e de produtos, a imprensa “atua” de forma muito diferente. A realidade demonstrou o poder dessa atuação. Nesse quadro de comunicação empresarial consolidada, mesmo diante do grau altamente criminoso de abusos da Impala, uma nota do jornal O Dia, em edição de 17 de março de 2006, chegou a afirmar o seguinte: “Com base apenas em uma denúncia, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária retirou do mercado o produto “esmalte da Xuxa” e o proibiu, com grande estardalhaço.  Verificou depois que a denúncia não procedia, mas,  apesar dos apelos da fábrica, não deu idêntica publicidade ao laudo final.  Fragilizada pela leviandade,  a Impala faliu.   Muita gente perderá o emprego”.

O mesmo Jornal que publicou essa nota inverídica, antagonicamente havia publicado dois meses antes, em 14 de janeiro de 2006, matéria de 2 (duas) páginas com fotos e relatos de várias vítimas do uso do esmalte Impala (divulgou e retirou a notícia  da web rapidamente). Posteriormente, em 2009, o mesmo jornal não respondeu à solicitação da consumidora para veiculação do link dessa matéria na web, mesmo tendo ela disposto a pagar pelo serviço de informação.

A opinião publicada pela mídia pode ser injusta e nefasta para consumidores vítimas de façanhas empresariais e, amplamente antagônica aos interesses da população, sobretudo, da imensa população de mais de 130 milhões de excluídos sociais.  

Compromisso social deve ser alvo primordial dos jornalistas empenhados na diminuição das desigualdades brasileiras. A aclamada liberdade de imprensa deve estar a serviço de informar, denunciar e assegurar os direitos dos cidadãos. Por mais que dependam de interesses políticos e de anunciantes de produtos para garantir a sobrevivência, em um caso como esse, que envolve Marca expoente e produto com nome de artista renomada, se não existe interesse da imprensa em divulgar casos de vítimas com graves sequelas internas e perda de todas as unhas dos pés e das mãos, quais outros interesses existem por parte das empresas dos meios de comunicação?

A sociedade precisa contar com a atuação consolidada dos meios de comunicação e da imprensa investigativa e científica para garantir os direitos dos consumidores e deter os abusos cometidos pela indústria e pelas instituições contra a população.

Renomados dermatologistas e artistas apoiaram a Impala em uma publicação antagonicamente intitulada: “A Verdade dos Fatos”,  na qual a empresa omite todas as suas façanhas empresariais contra a consumidora e a saúde pública.

Para auxiliar a levantar a “imagem da Impala”, a lobista empresarial – Anvisa – criou especialmente nova categoria de produtos: Esmaltes Infantis. Esse pioneirismo da Impala obteve especial destaque nos meios de comunicação. Todos esses fatos, simultâneos às ações aviltantes da empresa contra a consumidora, jamais divulgadas.  

Nesse quadro de “comunicação empresarial de massa fortemente solidificado”, restou a Luiza Rotbart, a condenação de constatar durante anos, vítimas do uso do produto tóxico que permaneceu no mercado, e atuar como “recall humano” alertando mulheres grávidas, informando consumidores e retirando o produto de salões de beleza e residências, com a colaboração de crianças que divulgaram os bastidores do caso em escolas e se organizaram em grupos em diferentes localidades do Brasil

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